Testemunho de quem sofreu na pele com o machismo e o fanatismo religioso

feminicidio charge carlos latuff 2010

O polvo ignorante pensa que contestadores como eu exagera, ou vai na corda dos outros, mas a realidade tá aí pra todo mundo ver. Somente a alienação que faz o polvo fingir que não está vendo. Às vezes é preciso viver na própria pele pra saber o quanto machismo, homofobia, e religiosidade é uma merda; mas sofremos com isso todos os dias: apenas aqueles que são despertos se revoltam com o que passam e não deixam por “assim mesmo”.

Eu já dou testemunho todos os dias aqui, e há uns dias uma pessoa que comentou neste blog comentou também como sentiu na pele a bosta do machismo brasileiro. Verdadeiro testemunho que vale tanto pra despertar os demais quanto para os mascus, que pensam estarem abafando com a própria babaquice!

(O nome não vou colocar por motivo de ética, claro! O testemunho em negrito e uns comentários auxiliares nos meios.)

“(…) trata-se de algo que sou totalmente contra: religião + política. Cara, francamente, respeito as crenças alheias, mas se o fanatismo religioso impede as pessoas do simples ato de conviver em sociedade, imagine os estragos que nãos faz ao governá-la! Digo isso não só pelos desastres na política, como vemos aí Marco Feliciano e sua corja, mas também por ter sido criada em uma família ferrenhamente evangélica, na qual eu passei um pedaço durante todos os meus anos de vida em família. Imagine você, quatro homens e somente eu e minha mãe de mulheres (minha mãe, inclusive, a mais machista de todos na família, acredite!).”

Os evangélicos querem ter algum respeito, mas pra quem conhece na palma da mão o que significa crente-do-cu-quente, eles nunca serão merecedor de ter!

O Brasil é um país de cultura machista tão ferrenha que até mesmo as MULHERES seguem direitinho os desejos masculinistas. Um exemplo atual disso é a moda das mulheres “gostosonas”: periguetes, mulheres-fruta, misses-bumbum, paniquetes, cantoras e dançarinas de funk, … Mulheres que são objetos de prazer sexual masculino.

“Fui criada e ensinada a ser inferior e submissa. Tinha um irmão quase 10 anos mais velho que eu (todos eram BEM mais velhos que eu) que me destruía tanto moralmente quanto fisicamente, e eu era obrigada a aceitar pelo simples fato de ele ser homem e porque a bíblia prega a submissão e a inferioridade da mulher. Quando tava no finzinho da adolescência, com 17, 18 anos, eu sentia vontade de denunciá-lo, mas sabia que minha família toda terminaria contra mim, além do fato de que quando eu falava do que me acontecia, as pessoas sempre subestimavam a situação, por acharem se tratar de “rixa de irmãos”, porque elas não viam o que ele fazia comigo.”

Um dos fenômenos da cultura machista e como ela é seguida por todos, ao ponto até mesmo do absurdo de parentes contra os próprios parentes vítimas, porque a sociedade ensina que não existe a opressão, ou ensina a absorver os crimes machistas como “normal”, ou mesmo a petulância e pouca vergonha de jogar a culpa na vítima. Daí acontece os absurdos dos próprios parentes culparem a vítima pelo estupro ou perguntarem se a pessoa não “ocasionou” o estupro. Ironicamente, mas que fica explicado o porquê, muitos são os parentes que defendem o parente criminoso, até fornecem guarita para ele!

“Bom, sobre minha família… complicado destacar pouca coisa, mas acho que posso dizer as coisas que interferiram mais na minha personalidade e educação. Primeiramente, eu era obrigada a frequentar as “reuniões cristãs”. Às vezes eu chegava a fingir que estava doente, a espernear, chorar, gritar, mas isso só resultava numa bela surra e eu acabava tendo que ir, com pernas e braços marcados de havaianas, cinto, galho de árvore, ou o que mais minha mãe conseguisse encontrar pra descarregar a raiva. Meus irmãos só iam se quisessem (ou seja, quase nunca).”

Aí um exemplo de imposição à força da religião no indivíduo. De fato nossos pais lidam o como a mais religiosa! Crianças não deveriam ser orientadas a nenhuma religião, deixar que a medida que cresçam se decidam se querem seguir uma religião… ou não seguir nenhuma.

E veja só: a mulher que era obrigada a ser religiosa! Os machos da casa podiam escolher ir ou não! Machismo detectado! Lembrando que a religião é um dos meios para se impor o machismo.

“Eu tinha três irmãos bem mais velhos: um era 9 anos mais velho, o outro 10 e o outro 12. O que era 10 anos mais velho era o que mais nutria ódio por mim. Minha mãe frequentemente o deixava “tomando conta” de mim quando precisava trabalhar ou sair por outros motivos. Ele me espancava quando tinha vontade, comia o que ela mandava ele me dar e eu ficava o dia inteiro passando fome, às vezes ele me trancava no banheiro ou no armário da cozinha por pura diversão. Pra ele eu não tinha nome, era “putinha”, “vadiazinha”, “sua merda” e daí pra baixo. Uma vez eu fugi dele quando ele parou pra atender a namoradinha ao telefone. Minha mãe ficou doida quando chegou em casa e não me achou, e saiu com ele pra rua pra me procurar. Me encontraram esconda numa tendinha a poucos metros de casa me protegendo da chuva e me levaram de volta. Ela sabia que ele me batia, não era cega. Todo mundo lá em casa sabia, mas é como eu te disse, pra eles era normal, mulher era objeto, escrava, ou um simples acessório pra descarregar a raiva. Nesse dia que eu fugi dele (eu tinha uns 5 anos), ele tinha tentado me persuadir a fazer sexo oral com ele; ficou folheando uma revista “playboy” pra mim enquanto falava. Eu nem sabia do que se tratava, mas fiquei apavorada e fugi quando ele parou pra atender o telefone. Maiorzinha, com uns 15 anos de idade e ele já burro velho, minha mãe achou de exigir que eu fizesse as coisas pra ele e meus outros irmãos: que eu lavasse suas roupas, louças, que lhe servisse as refeições. Eu rolava no chão com ele durante as brigas, mas não fazia nada pra ele; meus outros irmãos eram como meu pai, não se importavam com merda nenhuma, muito menos com a minha existência.”

Ficou apavorado, leitor? É isso que acontece quando se cria um verdadeiro besta-fera, um “Peter-Pan” sem limites (a tal da liberdade sem limite que os sociopatas da mídia tanto tão defendendo!), pela desculpa de que ele tem uma bronha no meio das pernas! A mãe comete o erro de colocar homem vigiando mulher – um estuprador em potencial pra proteger uma vítima em potencial é igual a querer que um macaco vigiasse bananas. A mãe ensina o filho a ser marginal (pois não deu limite pra ele) e ainda o bota pra vigiar a irmã como se o marginal tivesse alguma competência ou responsabilidade pra cuidar de alguma coisa! Não consegue nem aquietar a própria vara!

“Até que um dia eu me recusei a servir o almoço do meu “irmão mais querido” e ele veio atrás de mim com uma faca, me xingando de tudo que conseguiu se lembrar na hora. Meu pai, sentado no sofá da sala almoçando e assistindo TV, fingiu não ver nada quando meu irmão chegou à sala me seguindo e xingando com a faca na mão. Ele acabou desistindo porque tinha chamado a namorada pra almoçar conosco e ela tinha acabado de chegar.”

Depois as pessoas ficam se perguntando porque vive saindo notícia de marido matando esposa! Taí a resposta: disciplinam o homem a ser vagabundo e servido por mulher, a ver mulher como objeto, escrava doméstica e sexual, e quando a mulher protesta, ele se sente no direito de ferir ou matar a “empregada revoltada”! Notem que o pai é tão vagabundo quanto o filho, pois finge que não vê a verdadeira cena de terror e não ficou nem aí se a filha foi ameaçada de morte/agressão!

“(Sobre a namorada do irmão endiabrado) Nunca conheci uma menina tão burra, aceitava ser constantemente rebaixada por um cara que ela mal conhecia. Se você tentasse conversar sobre isso com ela, ela terminava com raiva de você e ainda contava tudo pra ele (uma das minhas piores surras foi por causa disso). Ele não demorou muito a começar a tratá-la feito uma inútil. Não fazia o que fazia comigo, mas era bem ignorante com ela. Hoje parece que estão casados, ela sustenta a casa enquanto ele com certeza continua assistindo suas perversões preferidas na internet e, quando ele acha que deve, arrebenta a cara dela, exatamente como fazia comigo. Já cheguei a esbarrar com ela por aí, cheia de marcas pelo corpo, principalmente no rosto.”

Isso acontece todos os dias: as mulheres não querem ver o machismo do namorado, e quando vêem estão sendo surradas e feitas de escrava doméstica/sexual por ele. E provavelmente o destino vai ser o mesmo: ela à morte e ele na cadeia. E não foi por falta de aviso! Às vezes faz sentido quando meu irmão diz que a mulher tem o marido que lhe merece: de jeito nenhum jogar a culpa na vítima, mas certas mulheres, infelizmente, vêem o vagabundo como um belo protetor/provedor lindo e maravilhoso e acabam virando o popular “mulher de malandro”. Por isso que faz muito sentido eu, a narradora  também,  estar só: por falta de homem que preste nesse país, antes só do que mal-acompanhado!

“Depois que saí de casa e me livrei daquela tortura, me surpreendi por tratar a mim mesma como sendo inferior. Era como se a praga do fanatismo estivesse impregnado em mim apesar de tudo. Demorei a gostar de mim, a entender que eu não era inferior a ninguém por ser mulher.”

É o resultado da alienação, fanatismo, ou mesmo em ter vivido no inferno, já aconteceu isso comigo também: a gente fica acostumado com o inferno e continua a viver tolerando a “presença” dele como natural.

“E, só pra você ver, meus pais até hoje não falam mais comigo por eu ser ateia.”

Às vezes você não é tratado com o devido valor que merece. Nesse país, isso é corriqueiro. Porque aqui, os valores estão invertidos: pode apostar que se a nossa protagonista fosse uma criminosa, com certeza teria o amor da família para sempre! :mrgreen: Esse é o Brasil!

Mas a nossa personagem merece todo o amor por si mesma, pois ela é uma guerreira que passou pelo verdadeiro Vale Da Sombra Da Morte, e está aqui contando a história para mostrar que não só seus irmãos delinqüentes, mas todos os mascus desse brasilzão devem passar vergonha pelo que são.

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Publicado em segunda-feira, 10 junho 2013, em burrismo institucionalizado, Homens, Machismo, Masculinismo, Misoginia, Religião, Sociedade brasileira e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Sendo assim, é um prazer. 🙂
    Me cadastrei e aceitei o convite. Saiu tudo certinho!

  2. Alessandro, tô aqui, altas horas, ainda fuxicando teu blog! Agora que vi este post. Não preciso dizer que achei maravilhoso, né? Eu espero, com toda a sinceridade, que quem leia este texto tome pelo menos uma gota de consciência; que quem estiver nessa situação, que não desista, que não se dê por vencida como até aconteceu comigo durante um bom tempo. Às vezes fico me perguntando o que seria de mim hoje se eu não tivesse conseguido minha independência e meu próprio lar, e fico me perguntando o que vai ser de uma pessoa que não tem condições de fazer o mesmo. Eu ia escrever mais, deixar um daqueles comentários grandes como tortura (HAHAHAHA!), mas a verdade é que nem precisa, porque você tem um dom que eu admiro: você sabe usar as palavras e os sentimentos simultaneamente. Você disse TUDO e eu, simplesmente, fico grata a você pelo carinho e por não desistir dessa luta de abrir os olhos das pessoas contra a estupidez dos preconceitos e do fanatismo religioso, que destrói vidas há séculos.
    Tem todo o meu apoio nessa luta árdua, com certeza!! (às vezes fico pensando que vencer essa luta talvez seja uma utopia, mas sabe no que eu penso depois? Na força que todas as manifestações do povo tem tido em nosso país. Penso em como o povo acordou de um sono que parecia eterno. Isso, pra mim, também era um utopia… mas aconteceu! Não desistamos dos nossos objetivos, temos de conseguir um dia!)

    • Que bom que você adorou, sinto-me com o dever cumprido!

      Manuh, eu percebo que você tem muita coisa pra falar, que são temas deste blog e que podem render bons posts: você gostaria ser contribuinte deste blog?

      “às vezes fico pensando que vencer essa luta talvez seja uma utopia, mas sabe no que eu penso depois? Na força que todas as manifestações do povo tem tido em nosso país. Penso em como o povo acordou de um sono que parecia eterno. Isso, pra mim, também era um utopia… mas aconteceu!”

      Falou tudo o que eu penso!

      Como cidadãos brasileiros, é nosso dever cívil fazermos o melhor por este país que também é nosso, na hora de votar e/ou ir pras ruas, seja no que você puder! Leia este post pra me ajudar a ter uma idéia para acordar o povão mais pobre que ainda insiste em dormir: https://blogalessandrotransgenero.wordpress.com/2013/07/06/por-que-os-mais-pobres-nao-se-revoltam/ Quero exibir o conteúdo político do meu blog fora da internet, para que mais pessoas tenham acesso. Já pensei em bater cópias e colar pelas ruas, entregar nas casas, pedir autorização para fixar nas lojas. E tem que ser em uma linguagem que os mais broncos aceitem ler, pois hoje em dia falar a verdade virou sinônimo de ofensa nesse país!

      • Alessandro, realmente tenho inúmeras coisas borbulhando na minha mente, doidas para serem ditas, divididas. Fico muito feliz com seu convite, e, de minha parte, aceito! Porém não sou uma pessoa muito assídua no mundo online e com isso eu poderia acabar ficando em falta com você e o blog algumas vezes. Enfim, deixo que você decida se é bom ou não que eu contribua por aqui dessa forma. A propósito, li a postagem que indicou e deixei minha opinião por lá, e tô aqui vasculhando minhas ideias pra te ajudar a espalhar essas verdades para o mundo também fora da internet! 🙂

      • Não precisa ser diário, Manuh, nem uma postagem toda semana: o momento que você quiser/estiver inspirada, você faz! Já estou inserindo você, e você vai receber automaticamente as instruções seguintes. Me avise depois se deu tudo certo.

      • Bem, preparei um texto. Apanhei um pouco do WordPress, visto que não estou familiarizada (acho que dei umas mancadinhas na formatação do texto). Espero que você goste. Tenho um bocado de outras ideias aqui. 🙂

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